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10/02/2010

Carne bovina: sustentabilidade deve nortear projetos de pesquisa em pecuária de corte

A sustentabilidade na produção de carne bovina deve nortear os projetos de pesquisa daqui pra frente. É o que se pode concluir das discussões da segunda reunião de programação conjunta de pesquisa em gado de corte para o Estado de São Paulo, realizada no dia 3 de fevereiro no Centro de Pesquisa em Pecuária do Corte do Instituto de Zootecnia (IZ-APTA) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA). Participaram do encontro, pesquisadores do próprio IZ, dos Institutos Biológico, de Tecnologia de Alimentos e de Economia Agrícola, das unidades regionais da APTA em Colina, Assis, Ribeirão Preto, Gália, Mirassol e Adamantina, bem como técnicos das Câmaras Setoriais e do Gabinete da SAA.       

Logo na abertura do encontro, a diretora do IZ, Maria Lucia Pereira Lima, defendeu que a pesquisa precisa fornecer respostas que mostrem que a pecuária não é responsável pelo aquecimento global. A pesquisadora Renata Helena Branco (IZ/Sertãozinho) reforçou, ao falar da importância de se viabilizar soluções tecnológicas sustentáveis para a cadeia de produção da carne bovina. Já a pesquisadora Maria Aparecida Cassiano Lara focou a questão da rastreabilidade, cujas oportunidades são qualidade do produto e sistemas de produção eficientes. A maior integração permitiria maximizar os resultados dos trabalhos de pesquisa e fortalecer o papel institucional.

A sustentabilidade é também uma das preocupações da Câmara Setorial de Carne Bovina, segundo o pesquisador Nelson Staudt, secretário geral das Câmaras Setoriais da SAA. Os pecuaristas estão preocupados com os impactos ambientais atribuídos à pecuária (emissões de gases de efeito estufa, desmatamento etc.).         

Para o pesquisador João José A. Demarchi, diretor do Centro de Nutrição Animal e Pastagens do IZ, a busca da sustentabilidade só vai ser obtida se os diferentes grupos de ciência se unirem, se houver mudança na cultura institucional da pesquisa. “É a hora de romper compartimentos e agir de modo mais coordenado. Eu não consigo pensar num sistema de produção sustentável (de carne, leite, etc.) sem pensar em clima (o pessoal da climatologia está no IAC), em solos, fertilidade, seqüestro de carbono, qualidade de carne, segurança alimentar, manejo de pastagem...” Lembrou que pastagem é meio, não é fim. Por isso, “estou indo nas reuniões dos centros de pecuária de corte, de ovinocultura, de leite, que tem vínculo com pastagem que permeia todas essas ações”. Defendeu que os pesquisadores (de diferentes centros e institutos e de diversas competências) sejam aglutinados por tema e subtemas. “Alguém terá de fazer a costura entre esses diversos alinhamentos numa proposta única que de fato crie uma pecuária sustentável, o que vai gerar os pacotes sustentáveis para a produção de carne bovina, de leite etc.”

A pesquisadora Maria Eugenia Mercadante lembrou que as pesquisas, em Sertãozinho, do programa melhoramento genético de raças zebuínas e caracu, através da seleção para crescimento (desempenho do peso corporal a um ano de idade), estão em sintonia com as propostas de integração e sustentabilidade. “Atualmente, o projeto produz reprodutores com alto valor genético comprovado, cujo sêmen se encontra à disposição dos criadores.” A novidade dessas pesquisas, o carro-chefe, é a caracterização do consumo alimentar residual  (CAR). O projeto, coordenado pela pesquisadora Renata Branco, recebeu cerca de R$ 300 mil do CNPq e da Fapesp.  E na seqüência novo projeto foi aprovado pelo CNPq, no valor de R$ 250 mil, para testar mais três progênies, conta Maria Eugenia. “Então, a gente vai ter cinco progênies testados para essa característica: identificar os animais que apresentem ganho mais eficiente, ou seja, os animais que ganham mais e comem menos.”

A ideia é avaliar essas medidas de consumo alimentar residual como critério de seleção, explica Maria Eugenia. “Então, em um dos rebanhos nelores do Centro, nós vamos passar a selecionar, não por ganho de peso, mas pelo CAR, por essa característica. Vamos ter uma resposta muito boa daqui quatro, cinco, seis anos... Mas podem pegar progênies daqui e colocar em outros projetos de sustentabilidade, de produção de metano... Tudo isso tem um enfoque muito grande de sustentabilidade, porque é produzir mais com menos imput, com menos alimento.”

Integração lavoura-pecuária

O pesquisador Roberto Molinari apresentou o projeto integração lavoura-pecuária, desenvolvido há três anos na unidade de pesquisa da APTA em Mirassol. “O nosso foco é a integração agricultura e pecuária a partir do pecuarista. Nós estamos fazendo esse trabalho num ambiente de pecuária de corte e, inicialmente, com os recursos que nós tínhamos na fazenda justamente para que a gente pudesse avaliar as dificuldades do pecuarista também em instalar esse sistema.”

No Brasil inteiro, esse sistema é mais feito por agricultores do que por pecuaristas, daí a mudança de foco, diz Molinari. “O objetivo desse projeto é gerar informações nesse sentido: as dificuldades que o pecuarista tem de entrar nesse sistema; as oportunidades que ele pode ter; o que é possível para viabilizar esse sistema; se é interessante ele ficar permanentemente dentro da propriedade com o sistema de integração lavoura-pecuária ou se é interessante ele iniciar com o sistema integração lavoura-pecuária e depois ele fazer a manutenção das pastagens com um sistema com bom manejo de pastagem.”

O projeto está na terceira recria, com animais nelore do Pólo Alta Mogiana (Colina), e já foram plantadas três safras de milho. A opção foi instalar a cultura do milho diretamente no pasto, sem preparo nenhum, conta Molinari. “Veio confirmar que é interessante, antes de iniciar uma cultura em sistema de plantio direto, preparar o terreno para que, depois, não haja mais necessidade de fazer o preparo convencional de solo. Quando você faz sem preparar diretamente no pasto, você tem muitas dificuldades de instalar cultura, de conseguir uma população homogênea de milho, você tem muita quebra de máquinas...”

O sistema mostrou também a necessidade de conhecimento mínimo do plantio direto, prossegue o pesquisador. “Nós fazemos a integração com o sistema de plantio direto. Então, o produtor – seja pecuarista ou produtor de grãos – tem que ter uma noção muito boa do sistema de plantio direto para que ele tenha uma rentabilidade que justifique colocar agricultura em área de pastagem.”

Nas condições da unidade experimental, Molinari lembra que, dos seis tratamentos em avaliação, dois são exclusivamente pastos, com manejos diferentes, e quatro tratamentos com integração lavoura-pecuária. “Nós estamos tendo a possibilidade de vivenciar, de ver detalhes e conhecer mais o sistema, para que possamos inclusive sugerir novos tratamentos, aplicação em diferentes sistemas... Está tendo uma grande validade também nesse sentido.”

No projeto, a pesquisa trabalha com milho e braquiária, diz Molinari, para verificar a consorciação com o pasto. “Quando chegamos na estação de seca, que normalmente tem falta de pastagem e pastagem de pior qualidade, normalmente nesse sistema temos um pasto de boa qualidade. E, se por acaso nós conseguimos implantar bem o capim dentro da cultura de milho – esse é o ponto-chave para o pecuarista –, nós também vamos ter uma boa quantidade de pasto.  Então, nós vamos diminuir o efeito da estacionalidade na produção de pecuária de corte ou pecuária leiteira.”

Assim, a quantidade de lâmina verde no período seco é muito maior nos pastos novos do que naqueles que já existiam, mesmo quando se faz adubação nitrogenada no final das águas, relata o pesquisador. “A partir do segundo ano, quase não se vê diferença.”

Molinari vê outra vantagem no sistema de integração lavoura-pecuária. No Estado de São Paulo, estima-se um déficit de 3,5 milhões de toneladas de milho, em relação à oferta e demanda. “Então, pelo menos na recuperação de pastagens – as pastagens degradadas são o grande problema da pecuária -, nós poderíamos minimizar dois problemas ao mesmo tempo: o problema das pastagens degradadas, que vai dar um efeito negativo direto no sistema de produção de gado de corte e gado de leite; e também esse déficit que existe dentro do Estado de São Paulo.”

Outro benefício é a oferta de áreas para arrendamento no Estado, que estão diminuindo, continua Molinari. “Os arrendatários procuram terra para plantar e não tem, por causa do avanço da cultura da cana. Então, desde que seja bem organizado, esse sistema também poderia permitir justamente as novas áreas para arrendatários, muito usado para reformar pastagem.”

Projetos temáticos

O pesquisador Flávio Dutra de Rezende apresentou projetos de pesquisa desenvolvidos no Pólo Alta Mogiana, em parceria com o IZ, universidade e frigoríficos. Ele citou as parcerias com a unidade de pesquisa de Mirassol, baseada em nelore padrão; a Universidade de São Paulo (USP), na área de reprodução, em diferentes tipos de inseminação e com financiamento de agência de fomento e doação do sêmen pela Lagoa da Serra; projetos na área de qualidade da carne, de avaliação dos marcadores moleculares, com a colaboração da pesquisadora Maria Aparecida Lara.

Também citou trabalho com gordura protegida, em área reservada para terminação e confinamento, e o confinamento experimental (60 baias de 10m2 individuais) onde se avalia desde a raça até a carcaça (do bezerro à fase de abate) e o comportamento animal. Outra pesquisa tem o objetivo de pegar bezerro desmamado de cruzamento ou nelore puro, levar ao pasto, estudar estratégias de suplementação, avaliar estratégias no período das águas e verificar a influencia que interfere na terminação. Já a parceria com JPS e Minerva possibilita a avaliação da carcaça em 100% das pesquisas, homogeneidade dos cortes, área do olho do lombo, acabamento, peso, etc. Outro projeto em andamento trata de pasto x confinamento como estratégia de usar a gordura protegida.

A partir de sugestão da pesquisadora Wignez Henrique, um levantamento de todo o rebanho bovino da APTA, incluindo o IZ e os Pólos Regionais, contando-se o número de animais por categoria em cada unidade, deverá ser apresentado na próxima reunião, dia 28 de abril em Ribeirão Preto, por ocasião da Agrishow. Além disso, os pesquisadores deverão apresentar projetos relacionados com o tema produção sustentável de carne. Segundo Maria Lucia, diretora do IZ, a tendência é que as várias áreas elaborem projetos menores para resolver questões específicas dentro de um mesmo tema.

  


Fonte: Assessoria de Comunicação da APTA -
José Venâncio de Resende

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